Quinta-feira, 16 de Junho de 2005
Quando caiu Palma Carlos, em Julho de 74, a recusa de Firmino Miguel forçou o general Spínola à escolha entre Melo Antunes e a criatura que aqui nos ocupa, ao tempo dirigente da Comissão Coordenadora do Programa (do MFA). Com a sensatez que sempre o notabilizou, o presidente optou pelo segundo. Diz-se que o achava “mais moderado”. Moderado ou não, o coronel Vasco Gonçalves começou com urgência a chamar a si poderes que o seu antecessor nem de longe possuía, remetendo ao primeiro-ministro o controlo de todas as políticas governamentais e obscurecendo o papel do próprio presidente. Outra peculiaridade do indivíduo consistia no facto de arrastar consigo o PCP, agrupamento que como o nome indica, visava a salvação da pátria e o contentamento geral. O general começava com certeza a preocupar-se.
Tornada a preocupação em impotência, e após a demissão de Spínola, o entretanto promovido brigadeiro Vasco resolveu, entre acções menores (como acumular com a pasta da comunicação social), incentivar perseguições festivas aos partidos de “extrema-direita”, designação que por pouco não incluía o PS. Pelo caminho, passou a fazer cumprir os amáveis conselhos do PC: a repressão aos “sabotadores da economia” (os grandes proprietários), a “unicidade sindical”, a “luta contra os monopólios” e diversões afins. Por enquanto, e na sua maior parte, eram apenas ameaços. O pior estava para vir, e não se fez esperar longamente.
A 11 de Março de 75, “legitimado” pelas trapalhadas de Spínola e seus acólitos, Vasco Gonçalves estendeu enfim o tapete do “socialismo científico” a Portugal. Começou por se nacionalizar tudo o que surgisse pela frente: bancos, seguradoras, petrolíferas, transportadoras, etc. - se alguma empresa escapou, foi decerto por descuido. 245 não escaparam. Depois, com a aproximação das eleições, tentou-se a respectiva desvalorização: o “povo”, embora encantador, carecia do saber necessário à escolha inteligente, numa formulação caseira das diferentes concepções marxistas da “consciência de classe”. Isto, acrescentado do (justo) receio de resultados que varressem os comunistas do mapa, conduziram às súplicas ao voto em branco, como manifestação de apoio ao MFA. O sufrágio de 25 de Abril serviu para provar a rudeza incipiente do “povo”, dando a vitória aos “fascistas” Soares e Sá Carneiro. Os “gonçalvistas”, todavia, estavam prevenidos: a 11 de Abril, falhadas as tentativas do imparável general Vasco para adiar as eleições, haviam imposto o “Pacto MFA/partidos” que, no meio de pequenas extravagâncias sem importância, limitava as funções do parlamento eleito à mera elaboração de uma constituição prévia e forçosamente orientada “rumo ao socialismo”. A coisa ia.
Infelizmente para o camarada Vasco, não ia tão bem como ele gostaria que fosse, dado que alguns miseráveis obstáculos teimavam em impedir o avanço do “proletariado”. As divisões no interior do MFA, já insinuadas em Outubro de 74, aquando da rejeição, por falta de “vanguardismo”, do plano económico Melo Antunes, agravaram-se. Sobretudo devido à contestação dos socialistas, que não viam a sua representatividade eleitoral traduzir-se na partilha do poder, no que eram apoiados pelos “moderados” do movimento. Esta dissidência seria “oficializada” em Agosto, com a publicação do documento que institui os “nove” como grupo autónomo e divergente das posições do governo e restante MFA. Na mesma altura, o “povo em armas”, aparentemente recusando a sua própria salvação, assaltava e destruía as sedes do PC.
Mas já desde Junho que o notável Vasco tentava, com ardor, impedir os progressos da “reacção”. Por um lado, detendo e torturando indivíduos avulsos, a título de experimentação da pedagogia estalinista. Note-se que as ordens de prisão, na sua maioria, foram assinadas pelo nosso herói. Por outro lado, atraindo as graças do COPCON, para o que enviaram, sob os auspícios soviéticos, Otelo a Cuba. Em busca da Luz, supõe-se. Nesse “Verão quente”, pasme-se, Vasco Gonçalves ainda teve tempo para arrancar da cabecinha o “Documento de Análise da Situação Política Actual”, peça de invulgar teor literário e um libelo acusatório do “ataque do capital”, pontuado com urros relativos à “vanguarda política” e à “via para o socialismo”, que já tardavam. Em Agosto, liderou o V Governo Provisório, pandilha de comunistas e aparentados cuja principal marca era a completa falta de legitimidade. Logo no discurso de posse, deixou claras as suas intenções: tornar “irreversível o processo revolucionário iniciado a 25 de Abril”. Para tanto, formou, através da “5ª divisão” e da Armada (os seus pilares nas FA), a Frente Unidade Revolucionária, que visava a tomada definitiva do poder, e, a partir desta, a Soldados Unidos Vencerão, curioso grupúsculo de sabotadores do exército. Estas manobras revelaram-se insuficientes para convencer a nação das virtudes do leninismo aplicado, o que muito aborreceu o primeiro-ministro. Quando foi a Almada, a 18 de Agosto, o camarada Vasco já não parecia ter cura: “Dizem-nos que este governo tem poucas possibilidades, tem muito pouca base de apoio, tem uma base de apoio muito restrita. Devo dizer-vos aqui o seguinte: não há nenhuma revolução, numa determinada fase da sua história, que não tenha tido uma base de apoio restrita. Pois é precisamente nesse momento que é preciso um governo forte e com autoridade. (...) Esse poder e autoridade só as forças armadas o podem dar”. O delírio é mais do que evidente, e até Otelo julgou o discurso despropositado. No fim do mês, mesmo o tíbio Costa Gomes não tem outro remédio a não ser demiti-lo. Até Novembro, a seita “gonçalvista” ainda se rebolou; a 25, estragaram-lhe o rebolado.

Matosinhos Hoje, 1 Maio 1996


publicado por ag às 15:23 | link do post

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