Quarta-feira, 6 de Agosto de 2003
Dizia o Paulo Francis dos tempos do Pasquim e de Ipanema: «Intelectual não vai à praia: intelectual bebe.» E o que fazem os bloggers neste abafado Verão? Submetem-se ao Algarve e à Caparica? Apanham pifos em frente ao monitor? (Fingirem que não são intelectuais, só por causa do EPC, não vale).


publicado por ag às 17:50 | link do post

Não sendo lisboeta nem explorador do proletariado, não possuo monte alentejano. Antes tenho uma casa nos arredores (?) de Vimioso, confins do Nordeste. A casa situa-se quase no topo de um outeiro, pelo que sem esforço se avistam as dezenas de suaves montanhas que separam Vimioso de Vinhais, por exemplo, ou da Lagoa de Sanabria, via Bragança. O lugar é lindo e o proverbial silêncio apenas se interrompe uma ou duas vezes por ano, quando a fábrica de foguetes defronte ao meu alpendre resolve explodir. A distância, talvez um quilómetro, é segura, mas nunca evita a sensação de que um Tir desgovernado nos entra pela sala adentro. Ainda há meses, este avançado centro de pirotecnia abriu todos os noticiários, mediante cinco vítimas mortais, que se somam a um considerável rol. Suponho que a Câmara local leva tais eventos à conta de propaganda turística: as vítimas serão assim os mártires da causa e os incêndios resultantes, até ver ligeiros, um mal menor. O certo é que ninguém encerra a fábrica, que após cada imolação renasce literalmente pronta para outra. Corrijam-me se estiver enganado, mas Vimioso não deve ser uma excepção à regra nacional.


publicado por ag às 12:17 | link do post

Não fora o momento que se vive e lançaria três foguetes de saudação ao Mata Mouros, pelos elogios excessivos com que prenda este humilde blogue.


publicado por ag às 11:47 | link do post

Em pleno gozo do pasmo que antecede as férias, varri a madrugada no sofá, contemplando um programa alemão sobre automóveis. Para mim, foi uma experiência inédita (e, definitivamente, única). Mas suponho que os assíduos desta espécie de produto acabam por pagar o preço: recentemente, um estudo conjunto de 5 universidades australianas revelou que o confronto entre os «bólides de sonho» e os destroços da realidade pode provocar mazelas graves. Os mais atentos dispensavam o aval científico. Com certeza já notaram uma espécie de carros que causam forte impressão. São aquelas coisas pequeninas com uma grade no meio e um moço, de óculos acima da testa, à frente. Como sabem, circulam sempre com as janelas semi-abertas e uma aparelhagem capaz de implodir um edifício de betão. Curiosamente, não ouvem música, mas uma audaciosa mistura de batuques do Burundi com o ruído de leitura das cassetes do ZX Spectrum, ambos em fast-reward.

Durante muito tempo, eu não percebia, entre outros pormenores, a função da grade. Agora, um amigo, que estuda comportamentos desviantes (à escala nacional), explicou-me: serve para que os condutores não tentem fugir. Não convém revelar estes dados ao público, mas as portas desses carrinhos estão permanentemente fechadas, os vidros só descem a metade por razões de segurança e, além disso, oculto na parte de trás, está um representante do corpo clínico que acompanha estes infelizes, pronto para lhes aviar uma seringa de Valium no pescoço, caso os pobres se desorientem em demasia - por exemplo ante a passagem de um Porsche. Uma situação extrema, felizmente pouco usual. A maioria das vezes, duas ou três réplicas da Matchbox são suficientes para acalmar a rapaziada.

Quanto ao barulho que os carrinhos difundem a dezoito quarteirões de distância, o meu amigo não quis adiantar grandes pormenores. Mas parece que o «tunning», como acho que popularmente se designa a fogosa sanfona, é sigla para «The Useless, Numb, Not Interesting, Noisy Guy». E consta que faz parte da terapia, embora a Organização Mundial de Saúde o tenha desaconselhado pela sua extrema crueldade.

Os óculos acima da testa é que nem o meu amigo arriscou explicar.



publicado por ag às 09:38 | link do post

Terça-feira, 5 de Agosto de 2003
Ou é de mim, ou a blogosfera foi-se abaixo por uma hora. Cheguei a suspeitar de atentado ao sector. Mas fontes de última hora, com acesso privilegiado ao ministério do Ambiente, asseguram-me tratar-se de acidente: uma granada esquecida por um combatente do Ultramar, que infelizmente afectou o server ou o browser ou lá o que é que cuida disto.


publicado por ag às 21:51 | link do post

Para lembrar que Homem a Dias é um blog duramente mantido por Alberto Gonçalves, sem auxiliares de limpeza (é, parece que o EPC desistiu mesmo).

E já agora: durante quanto tempo é necessário publicar estes avisos chatos mas inúteis? Existe algum protocolo bloguista que regulamente isto?


publicado por ag às 16:05 | link do post

Pacheco Pereira cita uma espécie de epitáfio que João Pulido Valente terá deixado. O pequeno texto é, de facto, notável e, no seu género, pouco frequente entre nós. Tem, ainda, uma curiosidade adicional (que não sei se JPP saberá): a frase «Quando eu morrer não quero choro nem velas, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela: Liberdade» foi retirada de um velhíssimo samba de Noel Rosa, discutivelmente o maior compositor brasileiro. Justamente «Fita Amarela», de 1933, composta 4 anos antes da morte prematura do autor, aos 25. Só que, na canção, «velas» está no singular, para efeitos de rima, e a «Liberdade» não existe. A musa de Noel era outra, decerto mais palpável.


publicado por ag às 15:23 | link do post

Noite morna. Estou com amigos a tomar café. Um cliente bêbado, murmurando insanidades, passeia-se pelas mesas, ante vasta indiferença. De súbito, o dono do estabelecimento dispara na direcção da rua com o bêbado nos braços. Eu e os meus amigos acorremos à cena, junto com os populares da praxe, a tempo de ver o dono do café empunhar uma vassoura e o outro continuar o discurso incompreensível.

Palavra puxa adereço e, no segundo acto, vá lá saber-se a razão, é o cliente inadaptado que segura a vassoura: o pequeno proprietário ergue agora uma cadeira. Decerto um interlúdio, porque no instante seguinte cadeira e vassoura são misteriosamente removidas para dar relevo a um x-acto, a cargo do bêbado.

Bêbado ou arquitecto. A peça começava a deixar-se perceber: a fala emaranhada podia ser, afinal, uma língua estrangeira, por exemplo o holandês. E, pela óbvia instabilidade emocional, era bem capaz tratar-se do sujeito que concebeu a Casa da Música.

O enredo já prendia, mas como quem puxa de um x-acto, puxa de um tira-linhas, achei melhor recuar uns metros. Até para facilitar a chegada triunfal de dois carros da PSP, que em meros vinte minutos irromperam feito relâmpagos.

Depois, lamento confessar, achei o final mal resolvido. O arquitecto holandês foi mandado em paz, enquanto ameaçava de morte tudo o que respirasse em redor; o dono do café tremia e suava, num esforço dramático algo forçado; e os polícias, os polícias cirandavam entre populares, interrogando-se acerca da própria condição (Pirandello em excesso).

Porém, e no cômputo geral, como sói dizer-se, o espectáculo valeu a pena. A ver.



publicado por ag às 02:20 | link do post

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2003
Yasser Arafat acha que a libertação de 440 dos cerca de seis mil prisioneiros palestinianos detidos nas prisões de Israel é uma fraude. Pior do que fraude: é uma rotunda estupidez. Algum dia eu haveria de concordar com o homem da rodilha.


publicado por ag às 18:10 | link do post

Prossigo a lista de felicitações pela hospitalidade dedicada ao Homem a Dias. Desta vez, os agraciados são a Causa Liberal e o Janela Para o Rio. Mas permitam-me um destaque muito especial ao Alfacinha, que me acusa de ser «bem relacionado». Destaparam-me a careca, confesso. Mas como é que o Alfacinha, supostamente a trezentos quilómetros de distância, conheceu a minha mulher?


publicado por ag às 17:56 | link do post

Homem a Dias é um blogue idealizado por Eduardo Prado Coelho e mantido por Alberto Gonçalves, a partir do momento em que EPC (e não Eapple) proibiu a si mesmo a prática de tão medonha actividade.


publicado por ag às 16:26 | link do post

«Lenny», de Bob Fosse, saiu em dvd. Não o via há quinze anos, este falso documentário filmado à Cassavetes. Mas «Lenny», mais do que Fosse, é Dustin Hoffman e Lenny Bruce, e é a fronteira entre ambos que, ao longo de duas horas, desistimos de tentar definir. No entanto, fora da fita, as diferenças existem. Hoffman, então já estrela, tornou-se domínio público e dispensa comentários; LB nem tanto.

Antes de mais, os lugares-comuns: LB, junto com Mort Sahl, criou a moderna stand-up comedy (dizer americana será pleonasmo), enterrando fundo as sementes que dariam, por exemplo, Woody Allen e Richard Pryor. Com Sahl, LB foi talvez o primeiro a subir ao palco em traje de rua e o primeiro a fazer das notícias do dia, literalmente, de jornal em punho, a matéria do riso. Ambos judeus, o que é regra no meio, revolucionaram por instantes a figura do schlemiel, o inadapatado anónimo, que em seguida Allen devolveria ao cânone em versão actualizada e singularmente genial. Durante um breve tempo - não por acaso o do pós-guerra - com Sahl e LB, o judeuzinho urbano e tímido arriscou o salto, falou alto e grosso, enfureceu-se.

Depois, Sahl, limitado à sátira política, ingressou, aos poucos e até hoje, em relativa obscuridade. LB, patriota à sua maneira, apolítico e no máximo anticomunista, arriscou demasiado em todas as direcções: «Seis milhões de judeus encontrados vivos na Argentina.» No auge, que chegou a tê-lo, começou a espiral de prisões, droga, novas prisões e julgamentos que o arruinaram emocional e financeiramente. Em final de carreira e de vida, abdicou do humor e fez-se caso jurídico, resumindo as actuações a prédicas pseudo-legalistas.

O schlemiel irado cedeu a vez à bandeira pela liberdade de expressão nos EUA, cujos limites drasticamente alargou. Mas a bandeira só foi hasteada quando LB já não a podia saudar. Não contando a seringa e o garrote, morreu no centro de um vazio imenso e, para ele, incompreensível. Fim mais judaico, é difícil. Aliás, é esse fim silencioso e absurdo que germina e se adivinha durante os 111 minutos de «Lenny». E é por isso que «Lenny», fita macabra, é um assombro. Curiosamente, o próprio LB, ouvido agora em gravações várias, nem por isso. Se calhar, nunca o quis ser.



publicado por ag às 15:40 | link do post

Não sou especialista do ramo, mas julgo ser mau sinal que um país necessite de ajuda externa para combater incêndios. Sobretudo quando parte da ajuda provém desse oásis de tecnologia e progresso chamado Marrocos.



publicado por ag às 15:21 | link do post

Domingo, 3 de Agosto de 2003
O Aviz não é um bom blogue: é um dos melhores média portugueses. Por isso é tão redundante eu fazer-lhe referência. Mas pela referência que o Aviz me fez, justifica-se o agradecimento.


publicado por ag às 17:03 | link do post

Mal critiquei os perigos do compadrio, recebo um post do João Pereira Coutinho, saudando o Homem a Dias. Felizmente, como é habitual no João, nem por instante a isenção cedeu terreno à amizade que nos liga, como aliás se comprova abaixo. Assim é que é bonito.

Aproveito ainda para lembrar que o João está aqui, está a lançar o seu site pessoal, que na altura própria comentarei de modo igualmente objectivo e rigoroso.



Alberto, Alberto:



Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Um blog. Rico serviço. Soube da novidade e

resolvi confirmar. Por minha conta e risco. Deslizei da cama como uma

lagartixa asquerosa. Aproximei-me do computador. Descalcei a chinela e, com

o dedo do pé, liguei o bicho. Dedilhei a morada e esperei. Subitamente -

subitamente, foda-se!, puta que pariu!, ai o caralho!, corno de um raio!,

grandessíssimo cabrão! - tu tens um blog! Tu, o melhor de nós. Tu, o ser

humano mais íntegro, mais culto e mais divertido que conheço. Sim, tu

passarás a escrever. Diariamente. Privadamente. Comunitariamente. Ensinando

aos selvagens o muito que me ensinaste a mim. Com amizade e paciência.

Naqueles jantares breves - quatro horas, cinco horas, seis garrafas - em que

dissertavas sobre Beckett, Garrincha e o belo par da tua prima. [A

propósito: como vai a Teresinha?]

Neste momento inaugural, e em plena construção de site (faz o link, patife,

faz o link), só quero que vás à merda. E que partas uma perna. E que faças

tudo aquilo que é suposto fazeres: com talento e erudição. És a pessoa mais

livre que conheço. E, claro, és o meu melhor amigo. Mas, por favor, não

espalhes estas paneleirices. Ou eu digo à Teresinha.



João Pereira Coutinho


publicado por ag às 16:41 | link do post

Ou o humor dos incendiários é negro, ou a natureza é irónica, ou estas vilas foram baptizadas por profetas.


publicado por ag às 16:20 | link do post

O Homem a Dias é um blogue financiado, realizado e mantido por Alberto Gonçalves, obviamente dedicado ao próprio. Se cumprir metade dos objectivos a que se propõe, chegará a um terço dos calcanhares do Tudo o que Não Escrevi, sem um décimo da graça inadvertida e genial de EPC.


publicado por ag às 13:24 | link do post

Que incontáveis graças cubram os responsáveis do Abrupto, Bomba Inteligente, Contra a Corrente, Flor de Obsessão e Intermitente. Numa rápida recolha, foram os primeiros a referir-se a este humilde blogue. Obrigadinho, malta.


publicado por ag às 13:09 | link do post

O meu pai, que já morreu, era amigo de Otelo Saraiva de Carvalho. Não digo conhecido, digo amigo porque era de amizade que se tratava. Uma amizade que vinha de longe e sempre se sobrepôs ao abismo ideológico que separava ambos. Eu, estive com o Otelo um punhado de vezes, a última das quais há quatro ou cinco anos, e aprendi com o meu pai a respeitá-lo enquanto pessoa privada, sem dúvida decente e leal. Ao meu pai, imagine-se, custava aceitar que Otelo fosse capaz das barbaridades que se lhe atribuem, quer como líder do Copcon, quer como alegado chefe das FP-25. Eu próprio faço-o com renitência e, apesar de tudo, irritam-me notícias semelhantes à que anteontem saiu no «Independente», destinadas a orientar o ódio de uma imensa direita e de certa esquerda.

A verdade é que, se calhar, o meu pai estava enganado e eu estou enganado. Segundo toda a evidência, aquela figura simpática e generosa abriga a mesma criatura que assinava mandados de captura em branco e comandava uma rede terrorista.

Contactar com Otelo, porém, anulou a possibilidade de avaliar, com justeza, Otelo. Isto vale para ele e para qualquer outro. Os juízos de valor implicam distância; a proximidade desfoca.

Eis uma explicação razoável para o estado da nossa opinião publicada. Salvo excepções, não temos comentadores, temos mensageiros, que passam recados nas páginas dedicadas ao efeito, exaltando compinchas, zurzindo desafectos. Nem vale a pena mencionar o espartilho partidário: Lisboa é pequena e provinciana (o Porto é pior), os restaurantes de jeito escasseiam e os bares em voga, por definição, são poucos. Toda a gente se roça mútua e publicamente aqui e ali. Antipatiza-se com uns, simpatiza-se com os restantes, não importa: o resultado é uma enviesada desgraça. Lembro-me de um «vulto» da crónica nacional a quem apetecia desancar Paulo Portas, mas que não o fazia «por ser amigo dele». A fidelidade ao amigo ficou-lhe bem; a profissão nem tanto.

À semelhança do IRS dos políticos, aos cronistas deveria ser exigida e tornada pública a declaração anual de relações pessoais. Ao menos perceberíamos de quem se fala quando se fala da «grande promessa que o parlamento revelou» ou desse «ministro emocionalmente débil, tendencialmente autoritário e um acabado cabrão». Ou sim, ou sopas. Os blogues, Deus os guarde, começaram pelo «sim», mas alguns já arrastam a colher para as «sopas». É a arte de ser português.



publicado por ag às 12:52 | link do post

Sábado, 2 de Agosto de 2003
Passei as últimas duas horas numa canseira. Corrijo aqui, rectifico ali, estrago acolá. Que querem? É o primeiro dia desta geringonça e digamos que a informática, mesmo se infantil, não é o meu S. Julião da Barra. Mas qual a primeira vez que não dá trabalho?


publicado por ag às 21:51 | link do post

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