Terça-feira, 5 de Abril de 2005
I
Acho que era Baudelaire quem nos incitava a partir, mesmo que pelo mero prazer da partida. Ou era Baudelaire ou o meu primo, já não sei. O facto é que, regularmente, uma pessoa obedece ao pedido e vai de viagem. Durante os dias, talvez as semanas prévias, constrói-se uma visão do destino, fundamentada naquilo que se sabe, naquilo que se leu à última e à penúltima hora, naquilo que se ouviu dizer, naquilo que se pretende que o destino seja.
Nunca funciona. De alguma torcida forma, o destino arranja sempre tempo para se transformar enquanto recolhemos a mala do tapete rolante e atravessamos, eufóricos como tontinhos do ensino secundário, a secção “chegadas” do aeroporto. Mal saímos do terminal, há logo qualquer coisa que se altera: os prédios são mais altos do que se imaginara, as pessoas mais morenas, não devia existir um quiosque de “fast-food” sob o viaduto, não antecipáramos o viaduto. Depois, do táxi até ao hotel e do hotel para esse particular pedaço do mundo, as surpresas sucedem-se, desbotando o rigoroso desenho inicial e substituindo-o por rascunhos dispersos, nada elaborados e pouco susceptíveis de merecer o nome de mapa.
Não se trata exactamente de desapontamento, visto que às vezes as revelações, ainda que imersas no ligeiro temor de todas as descobertas, possuem o agradável efeito da indemnização. Mas há um evidente desengano, que ao demolir os nossos pressupostos iniciais nos obriga a um imprevisto trabalho de adaptação.
Nunca falha. Para o bem ou para o mal. Copacabana é velha e os arranha-céus de Sérgio Dourado apressam o entardecer; mas eu não adivinhara a livraria em Ipanema que vende imprensa americana e não fecha. O Iucatão é uma imensa selva monótona; mas não trocaria por nada aquele café, sozinho numa praia de Tulum às cinco da manhã, o sol nascia ao fundo do mar e o barman dormitava encostado ao balcão. A mítica paisagem da Irlanda impressiona menos do que anos de expectativa faziam prever; mas o Eyewitness Guide não dissera uma palavra sobre o espanto que é acordar em Galway e abrir as cortinas para a baía cheia de sol.
A excepção a este processo de cansativos desmanchos e emendas chama-se Hay-on-Wye.

II
Hay tinha tudo para dar errado. Dadas as circunstâncias da ligação, cresciam as possibilidades da esperança ser arrasada entre o traçado e a realidade. Havia que chegar a Londres. Havia que alugar um carro. Havia que conduzir pela esquerda ao longo de trezentos quilómetros até Gales. Havia que enfrentar Hay. O percurso, ida-e-volta, foi meigo. Hay foi doce.
Não divaguemos. No caso da capital mundial dos livros, a grande questão era: e os livros? Não respondo para não chorar. Melhor, respondo e choro: livros, milhões de livros, quantidades incontáveis e quase insuportáveis de livros atulham-se nos ridículos metros quadrados que delimitam a cidadezinha. Bons? Não: todos. Dos Danielle Steel expostos noite afora nos jardins do castelo (30 pence, quem quer pagar põe a moeda numa caixinha) às salas inteiras dedicadas a Dickens ou a Churchill ou à poesia irlandesa ou aos colunistas britânicos. Livros na farmácia. Livros no posto dos correios. Livros espalhados pelas casas (na nossa encontrou-se Garton Ash e Pepys na cozinha).
Difícil era escolher. Não posso dizer que eu tenha escolhido: saí de cada loja com os sacos que conseguia carregar, largava-os no quarto e regressava à caça, com o Visa a arder quase tanto quanto eu.

III
Depois, o resto. Não só Hay se revelou perfeita, como a companhia foi sublime. Pelo que me toca, devo-o aos outros dois blogueiros, mais amigo e senhoras. Claro que nem tudo foram rosas. Este rapaz, por exemplo, especializou-se na busca de obras sobre putas e história do Brasil, donde não constituía ameaça. Mas estoutro sacana partilha comigo uma aborrecida inclinação para presas idênticas. Numa manhã, o desgraçado atirou a um Peter Simple antes que eu sequer puxasse da arma. Numa tarde, limpei o sebo a um Paul Johnson em vias de extinção com uma velocidade superior à que o meu concorrente precisaria para soletrar “Lídia Jorge”. E, feito raro, ambos despachámos dois Bernard Levin assinados pelo autor.
Mas a noite, com as lojas fechadas, tornava-se altura de tréguas recorrentes. Primeiro, alinhavam-se as conquistas da jorna pelo chão da sala. Em seguida, jantar, no pub ao lado ou na cidade vizinha. Por fim, retorno ao lar e serões da província pela madrugada, em volta de café, cigarros e lareira (apagada, Gales estava quentíssimo). No meio à deliciosa conversa fiada, apurou-se que: Bush é um idiota e um sujeito brilhante; a educação das crianças portuguesas só vai lá com compreensão ou castigos corporais; as ONG’s são uma emanação do Estado e as ONG’s são piores que o Estado; Portugal não tem emenda e bom mesmo seria vender o que possuímos e o que não possuímos e mudarmo-nos em definitivo para ali, a vender livros de culinária ou rissóis já feitos.
Eu também apurei que os meus amigos são dos melhores que uma pessoa pode desejar. Mas isso eu já sabia, ainda antes de Hay. Hay apenas reconfirmou esta presunção, como certificou todas as demais. Quando é que voltamos, rapaziada? Por mim, hoje.


publicado por ag às 15:26 | link do post

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