Quinta-feira, 16 de Outubro de 2003
O Ocidente está cada vez mais compassivo e fatigante. Dantes, se uma pessoa se condoía pelos desgraçados dos leprosos, limitava-se a dizer «Coitadinho!» e a correr em frente como um galgo. Em finais do séc. XIX, as vítimas da filariose (ou elefantíase - ver Lynch, David) e deformações em geral já mereciam paragem prolongada, pagamento à entrada e uns suspiros, menos de pena que de repulsa.

Nos famigerados anos 80 do século passado, a coisa começou a complicar-se, quando os piedosos que simulavam simpatia pelas vítimas da SIDA se viram obrigados a exibir um lacinho vermelho na lapela. Não era, ainda, muito grave: o penduricalho, além de não pesar dez gramas, ficava praticamente de borla e caía a matar (sem trocadilho) em elegante traje escuro. O êxito foi tal que, durante algum tempo, o merchandising da misericórdia se quedou por penduricalhos similares, variando a cor e a forma em função da calamidade a que se reportavam.

Em Portugal, pelo menos, a chatice a sério coincidiu com os massacres em Timor, há uns quatro anos: sujeito sensível, daqueles que não trocavam o «Lorosae» pelo «Leste», era socialmente constrangido a acender velas a horas absurdas e nos locais mais impróprios, a ouvir o cançonetista Represas e, para cúmulo, a pendurar farrapos nas janelas. Aos timorenses, os sacrifícios não serviam de muito - como de resto a iconografia anterior se revelou inútil às vítimas de qualquer calamidade - mas, de um bizarro modo, consolavam os respectivos praticantes.

Nada, porém, se compara aos esforços dos que escolhem sofrer em nome da pedofilia. Um feio dia, na Bélgica, um bando de manifestantes resolveu vestir-se de branco (por referência às pombas ou algo assim) e eis criado o uniforme oficial da Brigada da Castração. Por cá, fatalmente atrasados nas tendências do glamour, só há umas semanas o alvo modelo teve a sua estreia, na hilariante Marcha Branca. Se, contudo, havia quem julgasse que a moda seria passageira, fruto de uma falha momentânea nos mecanismos de detecção do ridículo entre os participantes, o dr. Pedro Namora deu o exemplo e mostrou ontem, no Parlamento, que o branco veio para ficar. Olhamos para o moço (e condizente séquito) em figura triste e escangalhamo-nos às gargalhadas, mas não deixamos de imaginar a dor que ele deveras finge sentir. As crianças justificam tudo. Até isto.


publicado por ag às 16:46 | link do post

mais sobre mim

Abril 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


Últimas

Dias Contados

A crónica do DN

A crónica da Sábado

Juízo Final

Dias Contados

2008, um lugar

2008, um filme

2008, um livro

2008, um disco

Juízo Final

Arquivo morto

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Outubro 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

Dezembro 2003

Novembro 2003

Outubro 2003

Setembro 2003

Agosto 2003

tags

crónicas da sábado

crónicas do dn

involução da espécie

todas as tags

Outros
blogs SAPO
RSS